terça-feira, 15 de dezembro de 2009

New York, New York - Parte 2 - A prova!

A largada é uma coisa muito bem organizada. São 3 pontos de largadas e 3 horários (9:40, 10:00 e 10:20). Entrei no “curral” da largada, nada de empurra-empurra, todo mundo se ajeitando e esperando o início. Encontrei o Andre que treina comigo.


Tivemos aquele último papo e fomos interrompidos por um grande estrondo! BUMMMM! Era um tiro de canhão! Logo na sequência ouvimos o Frank!

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Enquanto ”caminhávamos até o ponto ZERO da largada, o que se via era uma chuva de casacos sendo arremessadas para as laterais. Todo mundo tirando e jogando. Era muito casaco! Muitos moletons, cobertores, muita roupa mesmo.

Eu fui firme e forte com meu cobertor da American. Estava com frio! Muito frio!

Passamos pelo pórtico. Apito do chip. Start no relógio e ai era a hora de ver o resultado de todo treino. Agora realmente não tinha mais o que fazer. O relógio já estava startado!

Subi a Verrazano Bridge. Esse ponte tem 2 andares. A minha largada ia pela contra-mão da ponte. Outra largada ia no lado certo e a última ia por baixo.

Muita gente, mas não estava apertado, dava para ir num ritmo bom sem atropelar e nem ser atropelado. Fui conversando com o André enquanto subia essa montanha! Dizem que tem uns 80 metros de altura (é mais alta que a Rio-Niteroi). Mas a subida não pega muito, acho que com a adrenalina da largada essa subida parecia uma decida.

Saindo da ponte me despedi do Andre e apertei o passo. Ai já virava uns 5:20/km. E foi ai o 1o contato com o público. Numa pequena curvinha já apareceu uma familia de Chineses! Gritando e aplaudindo muito. Ah sim, tocando o famoso sino que ecoou a prova inteira. Fizemos um zigue-zague no meio de umas casas e pequenos prédios até cair na 4th Av. Ai sim os espectadores se multiplicaram. Os sinos aumentaram e a prova começou a ganhar um tamanho diferente. Milha 3 e o 1o posto de água. Isso foi muito organizado, a cada milha (1,6km – o que dava em media 8:30 a 9 minutos) tinha água e Gatorade. Longas bancadas, sem fila, sem empurra-empurra, uma organização impecável.

Essa água toda deu uma vontade de ir ao banheiro. Pô, mas tinha ido duas vezes antes da largada e já quero novamente? Não é justo parar uns 20 segundos agora para um rápido xixi, dá pra segurar, não é urgente assim!

Finalmente estava aquecido e as primeiras gotas de suor apareceram no 6km. Estava na hora de tirar meu cobertor companheiro. Me sentia o Lino do Charlie Brown com aquele cobertor. Estávamos muito apegados! Ele estava sentindo o que eu esperava pela frente. Toda minha angústia, dúvida, ansiedade, meus pensamentos, tudo isso eu dividia com a coberta, e me desfazer dela era necessário porém uma perda difícil. Então procurei o melhor lugar para jogá-lo, queria que ele tivesse um bom futuro. Foi quando vi uma mulher com 2 bull dogs. Pronto, arranquei e joguei para os cachorros. Vi a mulher agradecendo, desejando boa prova, e enquanto virava o pescoço par uma última despedida do cobertor vi um dos cachorros se ajeitando em cima dele. Bom, agora eu sei que ele trocou o suor de um maratonista pela baba de uns bull dogs. Espero que ele esteja bem!

Superada a perda, acelerei um pouco o ritmo para me aquecer um pouco mais rápido. Nessa acelerada a panturrilha do lado esquerdo (não a que tinha machucado) deu uma pinçada. Passou um filme todo na minha cabeça. Tudo o que eu tive em uma perna acontece agora, no 6k da maratona, só que na outra. Não, isso é muita sacagem! Não acredito em olho gordo, macumba, ”trabalhos” mas isso passou pela minha cabeça nesse instante. Olhei no relógio e descobri o motivo, estava a 4:45/km, voltei ao meu ritmo anterior, passei um pouco de frio, mas a perna sossegou. Ainda bem! Oxalá!

Pra dar uma animada e esquecer a perna, passei cumprimentando os torcedores. Crianças, adultos, bebês, alunos de escolas, tudo quanto é gente, com os braços esticados, tocando o sino, gritando e esperando um “Give me Five”. Acho que bati na mão de uns 3mil na corrida inteira.

Nessa parte juntaram as 3 largadas e a corrida era uma só. Olha lá na frente e vejo um cara de amarelo, com a mesma camiseta da MPR (do grupo de corridas e que eu usava). Era o Filippo. Não esperava encontrá-lo, pois a largada dele era 20 minutos depois da minha. Dei uma acelarada e passei muito rápido por ele. Diminui o ritmo e esperei ele emparelhar. Rimos e ele me disse que fez um “Pedri di Lari” e conseguiu largar 20 minutos antes. Ele estava num ritmo mais devagar que o meu. Nos despedimos e fui embora.

A vontade de ir ao banheiro continuava, mas um pouco menor e eu já estava esquecendo, tava agüentando numa boa. Acho que era psicológico mesmo. Agora a cabeça estava um pouco mais quente e precisava jogar o gorro fora. Tinha combinado de encontrar uns amigos na milha 7 (11km) e resolvi guardar o gorro para a Alana, filha da Hazel. Passando por lá, procurei por eles e quase passei batido. Por sorte o Inaki estava com uma bandeira do Brasil (e ele é espanhol) sai da prova pulando, dei um abraço neles, dei meu gorro para a Alana e fui embora. Esse encontro foi muito legal e energético. Me deu uma força e um ânimo gigantesco para prosseguir na prova. Isso não quer dizer que eu iria parar, mas é como se fosse um turbo, uma descarga de adrenalina!

Depois fiquei sabendo que eles ligaram para minha irmã (que estava no 35k) e que eles foram acompanhando meus passos pelo google earth. Tinha um link que dava minhas passagens a cada milha. Como diz a Hebe “impressionante essa tecnologia, não é uma gracinha?”.

A corrida continuava intensa, um sobe e desce, mas nada de assustar, mas tudo normal. Melhor até que uma prova na 25 de maio. E gente pra tudo que é lado. Cada vez mais apareciam pessoas. Corredores e público brotavam na minha frente.

De repente escuto uma sirene muito alta. Presto atenção e percebo que são várias sirenes. Olho um pouco para trás e me deparo com uns 3 carros dos bombeiros vindo mais rápidos do que nós. Olho para frente um pequeno prédio, de uns 6 andares, com o 2o andar em chamas! Os corredores rapidamente encostaram, os bombeiros pararam e alguns já estavam trabalhando. Pensei na hora e se a casa é de um atleta? A sua? A minha? O que fazer? Vixe, espero que estejam todos bem!

Quando estava na milha 12 (quase 20km) vejo o Adilson na minha frente. Sim o mesmo Adilson que iria jogar pedras em mim no Rio de Janeiro.

Só que dessa vez antes da prova ele falou que iria correr com várias pedras e até um estilingue para me derrubar. Eu particularmente gosto desse tipo de competividade! Esse é o espírito esportivo verdadeiro! Nada de “boa prova, vai bem, com calma” nada disso, isso é como gritar gol pra Argentina. O que vale é “Espero que quebre, vou ganhar de você! Se passar por mim te dou um rapa!”. Queremos que a Argentina perca, tome uma goleada, que caia o técnico, que machuque o Messi e sempre xingamos o Maradonna. Mas no final a gente divide a cerveja e já pensa na próxima.

Bom, nessa altura, quando vi o Adilson na minha frente pensei em 2 coisas. Ou passo por ele dando um “pedala”e aguento as pedras, ou vou quietinho pelo canto, esperando que ele não me veja. É claro que fui pela 1a opção. Ainda lembrava dos 15 segundos do Rio. Enchi a mão na nuca dele. Foi um belo tabefe! Ele conversava com um gaucho que não entendeu nada. Rimos e ele disse “agora desvia das pedras!” rimos mais um pouco e estávamos exatamente na metade. Enconstei para uma água e o gel. Adilson continuou.

Segui no ritmo que estava indo e saindo dos Queens chegamos na Queensbro Bridge. Não parece muita coisa, mas é um dos trechos mais difíceis da prova. É uma ponte alta e longa, mais de 1km subindo e forte. Muita gente andando, encontrei uns brasileiros que tinha conversado logo no começo da prova, um deles estava sem o relógio e queria saber qual era o tempo que tinha feito até ali.

A subida continua. Muita subida e cansativa. Embaixo da ponte tem uns armazens, depósitos, rio, a vista muda bastante, só não muda a inclinação. No final da ponte uma grande descida. Rápida, curta, inclinada terminando com uma rápida volta no quarteirão. Um alívio! Depois disso caimos na 1st avenida. Essa entrada na 1st av. me impressionou muito. Como na ponte não tinha ninguém na calçada e a subida matava muito, eu tinha esquecido do público. Entrando nessa avenida era um “Mar de gente”que não acabava mais. Dava pra ter uma visão geral da avenida, são 3 milhas (uns 5km) com muitos sobe e desce, como se fosse a 25 de maio. Umas 10 pistas de carro e gente pra tudo que é lado. O barulho dos sinos, cornetas , dos aplausos era “ensurdecedoramente” gostoso.

Mais de metade da prova começava a pesar. A vontade de fazer xixi já era, fui indo tranquilo, diminuindo um pouco o ritmo, curtindo as bandas. Aliás, as bandas eram muito boas! Tocou de tudo! Van Hallen, Michael Jackson, Black Eyed Peas, rap estilo Snoop Dog, e claro, a música mais tocada era

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Impressionante quantas vezes essa música foi tocada e como ela animava!

Fui encarando o sobe e desce e ai já estava no 30km. Esse ponto foi o decisivo para a minha corrida. Olhei no relógio e estava com 2:48. Vinha fazendo uma média de 5:35/5:40 por km. Fiz a seguinte conta: falta 1:12 para 4 horas e faltam 12km e alguns metros. Ou seja, se eu fizer 6min cada km, eu faço essa prova para 4 horas. O que significa um tempo excelente, muito além do que eu imaginava. “Muito mais melhor de bom do que qualquer coisa boa”. Vamos Rocky!

Um monte de coisas começou a passar na minha cabeça. Tem um monte de subida no final, tô começando a ficar cansado, sera que minhas pernas aguentam? Tem ainda os malditos 198metros ... e por ai vai. Um monte de razões para diminuir o ritmo e saber que seria mais fácil e confortável ir numa boa. Mas não, minha obsessão pelas 4 horas começou a ficar muito grande. Lembrei que minha família e amigos estavam no 35km, lembrei na Mari que estava torcendo e muito pela TV e que me apoiou e incentivou muito, lembrei dos amigos que também apoiaram nesses treinos e tirei força para seguir.

A cada milha tinha uma marcação e estava indo muito bem, sempre abaixo de 6min/km. O problema era nas hidratações. Perdia um tempo maior para beber água e gel e comecei a parar praticamente em todos os postos.

Mas foquei muito na prova. Nesse momento eu já não olhava para as pessoas ao redor, os torcedores e apenas pensava em chegar no 35km. Fui controlando e nada, nada dele chegar. Realmente estava longe. De repente fiz uma curva. Olhei para o relógio para ver meu tempo desde a última marcação e de repente eu escuto um grito ensurdecedor: “Docaaahhhhh”.



Era minha irmã. Assustei. Mas logo fiquei feliz por encontrá-los. Vi todos muito rápido, fiquei triste por ter quase perdido. Mas esse encontro me deu mais força ainda.

O Cesar me deu uma Coca (sem pinga), perguntou se eu estava bem, e fui embora!

Nesse momento eu tinha 35km com 3:17:45. As contas estavam devagar, realmente não conseguia raciocinar, mas uns 3km depois eu cheguei a seguinte conclusão: fiz 5km em 29:40 ou seja, 20 segundos abaixo dos 6min/km. O tempo começou a apertar e a folga que eu tinha estava no limite. Ainda tinha os 195 metros. Ainda tinha 7km. Ainda restava 42minutos.



Na minha frente agora as pessoas foram trocadas pro Pontos de Interrogações. Será que termino? Será que consigo nesse tempo? Será que vem muita subida? Será que tem um sorvete? Não sei porque pensei em sorvete, ri e apertei o passo.

Dai pra frente acho que não lembro mais de nada. Cai na 5a avenida. Que de descida não tem nada. Uma subidinha muito mala, com o Central Park do lado. Mas coloca mala nisso. Não parava de subir. Muita gente assistindo. Encontrei novamente o brasileiro sem relógio, passei pelo Neno (amigo de antigas corridas) e fui focado e acelerando.

Nesse ponto entrei no Central Park. 24 mihas, 3:39 no relógio. Nesse momento eu fazia entre 9 e 9:10 a milha e faltavam 2.2 milhas. Contas, números, interrogações, vamos que vamos. Acho que dá. Não pensava e acelerava. Lembrei do treino no dia anterior, já que passaria naquelas subidas novamente. Acelerei mais ainda pois sabia que ali perderia muito tempo.

Mas nem lembrei disso. Fui vendo as pessoas, fui rindo, fui curtindo esse final de prova, me animei e quando eu vi já estava passando pela milha 26, era só mais uma subidinha, cruzei a linha e pronto: 3:59:08.

Não acreditava no que via. Nessa altura a perna começou a doer, senti frio, sede, vontade de ir ao banheiro, vontade de chorar, de tomar sorvete, de beber cerveja, vontade de tudo, menos de ficar em pé! Doia tudo! Mas a sensação de ter superado tudo o que tinha passado era maior que qualquer coisa!

Sentindo tudo isso é que me faz pensar em começar tudo de novo e me preparar para a próxima!

Afinal, agora eu posso falar que depois dos 30, meu tempo na maratona até melhorou e já sou um Sub-4!

Araka!


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

New York, New York - Parte 1 - o pré prova

Esse é um dos posts mais complexos que fiz, está difícil. Já tem 1 mês que a prova já se foi e finalmente eu acho que consegui terminar a PARTE 1. Em breve vem o resto...

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Pode perguntar pra qualquer corredor: Qual a maratona dos seus sonhos? Eu posso te dizer que certamente você vai ouvir Nova York como resposta. Os comentários sobre ela são sempre parecidos “é uma prova difícil, muita subida no final, mas a galera te empurra, a prova é animal”.

Bom, como sabemos, cada pessoa tem um parâmetro, o que é fácil pra um é difícil pra outro, e o que significa esse monte de subida? Brigadeiro? Biologia? Reitoria? E a galera, quantos são na rua te empurrando? Mas todos concordam num ponto: é a corrida mais mágica que fizeram.

Na minha lista de maratonas eu sempre inclui Nova York, mas com esses comentários, eu sempre a deixei lá pra frente. Chicago, Berlin, Londres, Alaska, Kilimanjaro e Bagdá sempre apareceram na minha lista bem na frente de NY.

Numa breve retrospectiva, ao estilo Lost, (previously in this Blog) comentei que fiz a maratona de Paris e que, depois de uma surpreendente Meia do Rio fui comemorar os resultados com uns amigos corredores. Depois de horas conversando sobre as “Mais Fantásticas Corridas do Universo” e alguns vários chopps, eu vi que ainda não tinha uma prova-meta para fazer no 2o semestre e eu estava muito empolgado com a corrida.

Pensei em fazer triathlon, mas só de lembrar nos treinos puxados deixei pra lá. Pensei seriamente em alguma maratona, mesmo lembrando da carga de treinos. Tinha 3 boas opções: Berlim, Chicago e Nova York. Como o tempo estava curto (ainda precisava recuperar da maratona e reiniciar os treinos), quanto mais pro fim do ano seria melhor, sendo assim Nova York apareceu como forte candidata. Uma breve conversa com o Cesar e Marcos Paulo, fui alertado do risco que é fazer 2 maratonas em pouco tempo, seriam apenas 7 meses entre uma e outra. Falei com a Kamel Turismo e no feriado do 9 de julho estava tudo acertado.

E foi assim que eu fui parar na prova mais desejada do mundo. De sopetão!

Os treinos foram bons, coloquei muitas subidas durante essa primeira fase. Tempos melhores do que os treinos para Paris. Meus tempos caiam na mesma medida que a elevação do solo subia! Nunca subi tanto a Biologia!

A 2a fase da minha preparação começou numa manhã ensolarada de setembro, onde tudo parecia normal, menos para minha panturrilha, que arriou no 26k. Sofrimento, estaleiro, resguardo. Prevenção. Tudo para evitar uma lesão maior. Mas o Seu Aquiles apareceu junto. Ai foram 40 dias de fisioterapia, alongamentos, deep running e musculação. Dias intensos, quase 3 horas por dia de tratamento e muitas dúvidas sobre minhas condições (nesse caso mais mentais do que físicas).

Parece que funcionou, 4 semanas antes da prova comecei meus primeiros trotes e as corridas se incorporaram com o resto, ai eram quase 4 horas por dia.

A 3a é última fase dos treinos começou assim, e a cada semana aumentava 7k no treino longo. Cheguei a fazer 24k uma semana antes da prova. Agora num ritmo bem mais lento do que o de Paris.

Sem ter muita opção e esperando o fim das dores, embarquei para NY. Chegando lá minha grande dúvida era se a panturrilha e o Aquiles aguentariam e me deixariam terminar a prova.

Nunca tinha estado em NY. A cidade realmente pára para a corrida. Pra tudo que é lado existe alguma menção sobre a corrida. A cidade respira a maratona.

Ônibus da cidade falando da maratona

Fui na feira da maratona pegar meu número, chip e comprar uns souvenirs. Que loucura! A feira da maratona é gigantesca, muitos materiais, camisetas, shorts, porta trecos, tênis, tudo da maratona. Enlouquece qualquer corredor. E os não corredores também.

Número em mãos!


Foto em frente ao circuito (Doca, Filippo e Ricardo)


Chip estilo pulseira (descartável, não precisa tirar depois da prova)

No Sábado de manhã encontrei com o pessoal da MPR na frente do The Plaza Hotel (esse mesmo, o do Macaullin no filme Esqueceram de Mim). Enquanto esperávamos o pessoal chegar, Lance Armstrong (o ciclista e não o astronauta, como muita gente acha) apareceu por lá e desejou uma boa prova para nós.

Foto oficial do treino

De lá partimos para o Central Park dar um leve trote de uns 30 minutos. Não sei se foi uma boa ideia ter corrido ali, pois passamos justamente no 41k da prova e ai deu pra sentir o que nos esperava. Ali realmente era só subida, desculpa, um sobe e desce forte, bem inclinado, não muito longo, mas muito intenso. Se correndo num ritmo de 6:30 e com apenas 5 minutos de trote já cansava, eu não conseguia imaginar como eu passaria ali com uma 4 horas de prova. Para ser sincero, esse trote foi muito desanimador!

Foto pós treino (Adilson de Jeans - será que ele treinou? rs)

Pra piorar, esse dia era o 31/10 ou seja era o Halloween. Com todo o medo e expectativas criadas pela prova, não era nada encorajador encontrar nas ruas milhões de dráculas, vampiros, Jasons, entre outros. Por outro lado ver crianças de superman, fada madrinha, minie descontraiam o clima.

Ainda bem que ninguém teve a ideia de se vestir como o Padre Cornélius (aquele idota irlandês que atacou o Vanderlei nas Olimpíadas).

No hotel uma verdadeira balada de Halloween. A minha noite pré maratona parecia que seria um verdadeiro inferno, palco de um digno Dia das Bruxas. O cenário não era nada convidativo para um corredor. Pessoas fantasiadas e música alta, junto com a ansiedade da prova, ingredientes perfeitos para não dormir mas, não sei como dormi muito bem!

Fui com o Filippo e com o Ricardo no domingo cedo para pegar o busão para a largada! Antes disso, as 5h um café da manhã reforçado no hall do hotel, enquanto comíamos pães com queijos, frutas e sucos, alguns dráculas e diabinhas voltavam das baladas e desejavam boa prova.

Fomos para a 5a avenida e o cenário era assustador. Realmente um Halloween. Parecia aqueles filmes em que estão evacuando as cidades. Catástrofe à vista! Todos andando em fila, uns 100 ônibus estacionados, policia com mega fones, bombeiros, ambulâncias para tudo quanto era lado. Por alguns instantes estava esperando aparecer um monstro destruindo os prédios de Manhatann ou cair um meteoro do meu lado. Pânico geral! Mas o medo de todo mundo era a corrida mesmo. O frio e a leve garoa que caia contribuiram para esse cenário de fim dos tempos.

O busão foi bem rápido, passando pelo mesmo local que passaríamos mais tarde, porém mais devagar e menos tensos.

A espera para a largada é longa. Mais longa que o tempo do voo. Mais longa que as aulas de deep reunning. Mais longa que os treinos longos. Mais longa que qualquer fila de banco em dia chuvoso. Mais longa que a espera do pedágio da Imigrantes em véspera de Ano Novo. Mais longa e chata do que qualquer coisa que você possa imaginar.

6:20 começou a chover, uma leve garoa. Entrei numa tenda, cheia, apertada, gente pra tudo que é lado. Eu e o Filippo ficamos num canto com metade do toldo na nossa cabeça. Filippo deitou e dormiu. Eu lá, sentado, firme e forte, apenas pensando. Sem nada pra ler, só fazendo contas, de quanto equivalem cada milha, cada pace em milha, contas, números, expectativas, repassando o cronograma, tudo.

Agora olho no relógio e já são 6:23. Quando falo que o tempo não passa não é brincadeira não.

As 8:30 o Filippo foi para sua largada. Banheiro (xixi ainda bem!). Comecei a tirar os trajes (calça, moleton) e deixo tudo no guarda volumes. Banheiro de novo (xixi de novo! Graças a Deus!). Agora o tempo voou e já são 9:20 e ainda preciso guardar todos os geis, lenço, tempo de prova, será que faltou alguma coisa? Encontro outros brasileiros, vamos conversando e a tensão só aumenta.


Chego no portão de entrada, tudo mega organizado, procuro minha Wave, meu gate e pronto. Agora já estou com o gorro pink do Dunkin Donuts, cobertor da American Airlines, luva e esperando o tiro de largada!