domingo, 26 de abril de 2009

5 de Abril. O dia.

Um pouquinho antes de viajar, decidi que precisava comprar um livro para me ajudar a matar o tempo. Sem idéias e indicações fui me aventurar na Fnac para ver o que achava.

Já estou em Paris. Uma fria manhã de 5 de abril, aquecimento na Champs Elysees. Mais alguns minutos e a largada para o maior feito da minha vida. Nunca me dediquei tanto em algum projeto pessoal. Nunca me esforcei tanto. Nunca havia feito uma maratona. Nunca os minutos foram tão longos.

Comecei a andar pela Fnac, livros de arte? Não, espero ver essas obras por lá mesmo. Pocket books em inglês podem ser uma boa, mas o formato e aquele papel jornal “sem figuras” não me animaram.

Já estou na rua, próximo ao Arco do triunfo, Muitas pessoas na frente, mas muitas mesmo, cerca de 32mil corredores (2 vezes a São Silvestre) e o coração a mil! Largou. Carroagem de fogo tocado a todo vapor. 14 minutos depois eu passo pelo pórtico da largada. “Vaaiii Dooocahh!!!” esses foram os primeiros gritos de minha irmã que me empurraram durante a prova. Agora começou a minha maratona!

Com essa multidão na minha frente, fui bem mais devagar do que eu esperava. Pra piorar um pouco, meu shorts estava muito pesado com gel e suplementos e não parava de cair, ainda bem que o Renato passava pelo lado e me ajudou a amarrar, sem essa ajuda tudo seria bem pior. 6:45 no 1o km, 6:30 no 2o e quando cheguei próximo dos 5:40, ritmo que deveria estar seguindo, a corrida parou. Inesperadamente, no 5o km as pessoas foram com muita sede nas águas e literalmente pararam para beber. Azar de quem só queria pegar a garrafa e beber depois. Tive que andar, pela única vez na prova, e ficar esperando por um tempo, e nessa hora fiz o pior km da minha corrida, 7:35


Passo pela área de Cds da Fnac. A música é intensa, com uma qualidade boa. Vou vendo os cds e vejo muitas bandas e cantores, conheço alguns, muitos nunca ouvi e outros quero distância. Durante a prova, 75 bandas tocaram todos os ritmos imaginados para nos dar aquela força extra. E olha que ajuda. Tinha de tudo, rock, blues, reggae, mpb, música clássica, um verdadeiro festival! As músicas que eu conhecia eu cantava, outras acenavas e na maioria só aplaudia.

Um pouco depois disso voltou tudo ao normal. Voltei a encaixar meu ritmo, a densidade demográfica ainda era grande e a animação era maior ainda. Passei 10km com 1hora em ponto. Quando vi já estava nos 15km, e quando menos esperava, tinha completado a meia maratona em 1:59:59. Como vocês viram nos outros posts, um tempo relativamente alto para o que eu estava treinando, o que com certeza fez a diferença.

Na parte de DVDs, os filmes também são diversos. Documentários, comédias, dramas e super heróis como Homem aranha. Batman, Teletubies. É, também os encontrei na prova. Sem falar da Noiva em Fuga, Tarzan, Palhaços e outros tantos malucos que colocam um uniforme adquado para a prova. Mas a audiência da prova era ótima. 250mil pessoas assistindo, torcedo e aplaudindo. E muito "Allez Bresil" era o que eu mais escutava. Muitos brasileiros na torcida, e alguns argentinos correndo. Não pude deixar de saudar nossos hermanos argentinos que acabavam de perder de 6x1 para a Bolivia.

A busca na Fnac continua difícil. Os livros de fotos são muito grandes, pesados, como minhas pernas nesse momento. Como a minha alimentação estava bem regulada, passei rápido pelos livros de culinária. Os jurídicos e de psicologia não queria nem saber. Deveria ter parado um pouco nos de auto ajuda, afinal a essa altura qualquer ajuda é muito bem vinda.

A essa altura estava chegando nos 30km. Nunca havia passado dos 30km. A partir dalí seria tudo novo. Ali encontrei minha irmã pela última vez. Outro grito que escutei a uns 20 metros, minha mãe me entregou uma batata, meu cunhado tirou umas fotos e o Emerson, treinador, perguntou se estava tudo ok. Eu não acreditava, mas estava muito bem.
Com essa animada torcida particular, continuei tranquilo por mais uns 2km. Mas ainda faltavam 10km.

Continuei andando pela Fnac quando parei na literatura brasileira. Olha daqui, olha de lá e achei Mario Prata. Gosto muito dos textos dele, já li alguns livros e achei que poderia ser adequado para a proposta da viagem. Sento no chão e vou lendo seus títulos, quando me deparei com “As 100 melhores crônicas de Mario Prata”. Crônicas? muito interessante, cada uma com 2 páginas em média, ou seja, não é uma leitura que precisa de continuidade e sequência. Estava escolhido.

Nos 35km a coisa ficou mais feia. A essa altura, existe mais pessoas andando do que correndo. Os gritos da torcida estão mais escassos e as bandas desapareceram. Pra piorar ofereciam vinho. É verdade, mesas cheias de vinho! Pena que faltavam 7km ainda. A cada metro mais pessoas desistiam na minha frente. Alguns caiam. Outros desabavam. O cenário não era encorajador. Comecei a sentir um pouco a perna. Pensei um pouco sobre essa dor e logo o joelho, o tornozelo, os pés, o ombro, a orelha, o corpo todo doia. Parei de pensar nessas coisas urgente. Comecei a lembrar de coisas boas e ai veio o meu querido tricolor. Cantei o hino, músicas da torcida, lembrei do Morumbi. Melhorei na hora e fui mais forte do que imaginava.

Já voltei da Fnac e estou fazendo a mala. Nesse momento, vi pelo canto do olho um livro na minha mesa “ A menina que roubava livros”. Comprei esse livro há 1 ano, logo após um acidente de carro que tive e que me tirou das corridas por 3 meses. Tinha começado a ler esse livro, mas como não estava com a cabeça muito boa (a batida e os remédios me deixaram meio louco naquela época, até uma moto eu comprei) abandonei o livro na mesa. Resolvi levar junto com as crônicas do Mario Prata. Na espera do avião comecei a folhear e não demorou muito para essa menina roubar outro livro. Desencanei do Mario Prata e cai de cabeça nesse livro. Ele foi ótimo e um grande companheiro nessa jornada. Não terminei, mas para mim, foi como uma maratona, li 315 das 480 páginas.

A essa altura estava passando pelos 40km. Inacreditável! A torcida aumentou, as bandas voltaram, a corrida esta boa de novo! Continuei indo e nos 41km desabei. No choro. Corria e chorava muito! Não acreditava que faltavam 1195metros. Fui correndo muito feliz, passei pelos 42.000m e agora era a última curva. A linha de chegada na frente e o Arco logo atrás para finalizar esse triunfo. Cruzei com incríveis 4 horas, 2 minutos e 37 segundos.

É, agora eu sou um maratonista!

Araka!

PS.: Nesse link, tem 3 vídeos da corrida.
http://www.parismarathon.com/marathon/2009/us/r1_resume.html

Um com o pelotão de elite e outro dos maraturistas que fizeram a animação da prova. Vc já perdeu um tempão lendo essas coisas aqui, vá lá e perca mais uns 10 minutos pra se animar pra fazer uma também! Vale, e muito a pena e sim, é possível!

5 comentários:

Anonymous disse...

Querido Doquinha!

Parabéns pelo belo texto - como editor, acho que vc poderia escrever um pouco mais, recordando-se de cada detalhe da prova, os competidores em volta, o público, os sons, sua cabeça em cada momento, a vontade de fazer xixi (ou cocô, se é que as teve), etc, etc. e fazer um pequeno livro, diagramado por vc, lógico.
E parabéns pela corrida, maratonista!

Abração,
Leonel Prata

Anonymous disse...

Tá animal, parabéns! Preciso começar a correr tbem!
Boderroco!

Renato (marido da Vivian) disse...

Grande Doca,

Tava ansioso por esse blog, primeiro para saber como tinha sido sua epopeia e segundo para ver que coelho literario voce sacaria da cartola. Valeu a pena esperar! Foi muito bom saber que voce chegou la, e pude tambem reviver minha maratona de Paris. Melhor ainda foi curtir tudo isso com um texto brilhante, a FNAC nunca foi tao interessante. Parabens! Quem sabe volto a curtir correr?!?! Ainda mais porque agora tenho uma companheira... Abracao

Anônimo disse...

AEEE, Doca!! Parabéns! A realização deste tão nobre objetivo foi maravilhosamente descrito. É emocionante ler este seu texto. Tambem este desafio e um desafio maravilhoso, nao? Ainda bem que continuará correndo, pois assim até me animo para continuar treinando, quem sabe um dia chego la... E quero dizer que gosto muito do jeito que voce escreve.
Beijos,
Fe Sanna

Brenda disse...

Mingauzinhooo...

Nossa...tô aqui lendo e lendo... e me empolgando.... menino, que delícia ler essa trajetória maratonista....parabéns pela coragem e pelos desafios encarados!

Um orgulho viu???
BeijO!